CUSTO
HOSPITALAR: UMA REFLEXÃO SOBRE IMPLANTAÇÃO E
NECESSIDADES
Carlos Alberto Serra Negra *
Elizabete Marinho Serra Negra **
A
proposição deste trabalho se deve ao fato de sermos de opinião que devemos
antecipar e apresentarmos resultados
parciais de uma pesquisa mais abrangente sobre a Contabilidade Hospitalar.
Neste universo, o custo representa o aspecto mais importante para a tomada de
decisões na concepção dos administradores hospitalares. Urgência e necessidade de sua implantação
para a sobrevivência dos hospitais é um desafio técnico para os contabilistas
destas instituições. Procuramos estruturá-lo numa seqüência de informações que
contemple as informações mais básicas até as mais complexas sobre custos
hospitalares. Partimos da exposição dos conceitos básicos da Contabilidade de
Custos. Informamos quais foram os recursos metodológicos que nortearam a
pesquisa. Fizemos um breve comentário sobre os antecedentes históricos das
tentativas de implantação de custo hospitalar no Brasil . Mostramos as
metodologias de rateio para o custo hospitalar. Evidenciamos a viabilização de
um sistema de custo aplicado às instituições hospitalares e, finalmente, é
relatado o resultado de nossa pesquisa.
1
– INTRODUÇÃO
A contabilidade de custo surgiu junto com a revolução
industrial, como tentativa de se elaborar um inventário disponível em um
determinado período operacional, onde procurava-se identificar o valor dos
produtos fabricados e vendidos. Todavia naquela época as empresas apresentavam
processos de produção muito semelhante aos processos artesanais, e compunham,
sua matriz de custos, basicamente com matérias primas e mão-de-obra, que eram
sem dúvida os mais relevantes (Martins,1990).
Desde a Revolução Industrial, a contabilidade de custo
sofreu uma evolução considerável, devido a necessidade de realinhamento de seus
objetivos e no atendimento aos gestores de informações mais confiáveis e
rápidas.
À partir da 1ª Guerra Mundial, com o incremento do
processo produtivo, conseqüente aumento
da concorrência entre empresas e a escassez de recursos, surgiu a necessidade
de aperfeiçoar os mecanismos de planejamento e controle das empresas. Neste
sentido as informação de custos, desde que devidamente apresentados em
relatórios, seriam um grande subsídio para o controle e planejamento
empresarial. Diante de tal fato, a contabilidade de custos tornou-se, devido a
grande gama de informações que a compõem, um grande sistema de informações
gerenciais (Kaplan & Johson, 1993).
Pode-se definir a seguinte classificação para os
objetivos da contabilidade de custo:
§
Determinar o valor
inicial e final de matéria-prima em estoque;
§
Determinar o valor final
dos produtos fabricados e em processamento;
§
Elaborar demonstrativos
do custo de produção de cada produto fabricado;
§
Elaborar demonstrativos
do custo dos produtos vendidos;
§
Elaborar demonstrativos
de lucros e prejuízos.
§
Analisar o comportamento
dos custos;
§
Preparar orçamentos com
base no custo de fabricação;
§
Determinar o custo
padrão de fabricação;
§
Determinar as
responsabilidades dentro do processo de produção;
§
Determinar o preço de
venda de cada item de produção;
§
Determinar o volume da
produção ( além do ponto de equilíbrio, porém dentro da capacidade da empresa).
§
formar preço de venda;
§
eliminar, criar,
aumentar ou diminuir certos produtos da linha de produção;
§
produzir ou adquirir no
mercado;
§
aceitar ou rejeitar
encomendas
§
decisões quanto a alugar
ou comprar.
Os hospitais modernos são instituições destinados a cumprir, independente do modo que se estruture, cinco grandes funções na área da saúde: preventiva, de reabilitação, restauradora, de ensino e de pesquisa. Por isso é que Rocchi (1982) nos mostra que em conseqüência direta da diversidade de serviços prestados, a apuração e a análise dos custos hospitalares é trabalho complexo e exige, entre outras condições, a perfeita delimitação dos centros de custos e um eficiente sistema de informações contábeis
Em qualquer hospital,
independente de tamanho, o controle de custo visa fundamentalmente determinar e
analisar o custo total dos serviços prestados a cada paciente. Porém não é
tarefa das mais simples a determinação de custos em instituições dessa
natureza. Nosso trabalho se propôs a levantar, delimitar e analisar as
interfaces necessárias para plena utilização da contabilidade de custos em
instituições hospitalares. Partimos de uma pesquisa de campo para depois
inserirmos a pesquisa bibliográfica e, para nossa surpresa, muito pouco se tem
feito no brasil no campo da administração, e mais especificamente, da
contabilidade hospitalar.
2
– CONCEITOS BÁSICOS DA CONTABILIDADE DE CUSTOS
Após analisar vários autores (Sá, 1990) (Leone, 1997)
(Iudícibus, 1978) (Horngren, 1985) (Atkinson et alii, 2000) (Nakagawa, 1994) (Sakurai, 1997) somos de
opinião que não existe um conceito universalmente aceito para a palavra custo.
Existe por sua vez, uma infinidade de discordância sobre o assunto. Porém,
mesmo existindo estas divergências, é necessário definir e citar alguns
conceitos e classificações, que julgamos mais adequados ,para fins de
entendimento do texto:
§
Custos : é o valor de bens e serviços e serviços consumidos
na produção de outros bens ou serviços. Exemplo: O custo com antibióticos
utilizados para dar alta a um paciente com pneumonia.
§
Despesas: é o valor dos bens ou serviços não relacionados
diretamente com a produção de outros bens ou serviços consumidos em um
determinado período. Exemplo: Despesas com frete de equipamentos biomédicos
para manutenção.
§
Gastos: é o valor dos bens ou serviços adquiridos pelo
Hospital. Exemplo: O valor da aquisição de uma licitação de fios cirúrgicos.
§
Desembolso: é o pagamento resultante das aquisições dos bens e
serviços pelo hospital. exemplo: Pagamento pela aquisição de um lote de bolsas
hemoterápicas.
§
Perda: é o valor dos bens ou serviços consumidos de forma
anormal e involuntária. Exemplo: Danos provocados por sinistros.
§
Desperdício: é o consumo involuntário, que por alguma razão não
foi direcionado à produção de um bem ou serviço. Exemplo: Violar pacotes
esterilizados e não utilizar todo o seu conteúdo.
É importante ressaltar ainda, que um determinado bem
em certo instante pode perfeitamente ser classificado em um determinado
conceito e com o desenvolver do processo produtivo poderá mudar de categoria,
ou mesmo estar incluído em mais de uma categoria.
Para melhorar o seu entendimento, os custos foram
aglutinados em seis grupos. quando relacionados com o tipo de atividade
hospitalar e classificam-se em :
Grupo 1: Quanto ao seu objeto:
§
Aplicáveis: são custos que ocorrem durante a produção de bens ou
serviços relacionados com a atividade fim do hospital ou serviço etc. Exemplo:
O custo com o oxigênio em uma unidade de internação.
§
Inaplicáveis: são custos que não estão relacionados diretamente
com a produção de um bem ou serviço hospitalar pertencente a atividade fim do
hospital ou serviço. Exemplo o empréstimo de uma sala cirúrgica para outra
unidade hospitalar da rede.
Grupo 2: Quanto ao grau de detalhamento:
§
Custo unitário: custo de
produção de um único produto ou serviço, obtido através da metodologia do custo
por ordem de produção. Este método parte da aglutinação dos custos unitários para
os custos totais de produção. Exemplo: reforma de uma unidade de internação.
§
Custo médio unitário: custo de produção de um único produto ou serviço,
obtido através do custo total de produção de
"n" produtos dividido pela quantidade deste produto em determinado
período. O sentido da aglutinação neste caso parte do custo total para o
unitário. Exemplo: custo de um hemograma junto ao laboratório de patologia
clínica.
§
Custo total: é o custo para produzir "n" produtos ou
serviços em hospital.
Grupo 3: Quanto ao relacionamento com nível de
atividade:
§
Custo fixos: são aqueles que com a estrutura de produção
constante, não variam com a quantidade produzida. Exemplo: energia elétrica
gasta com a iluminação em laboratório de análise.
§
Custo variáveis: seu montante, no período em estudo, varia
proporcionalmente a quantidade produzida. Exemplo: Filme radiológicos e o
número de exames realizados no serviço de radiologia.
§
Custo misto
escalonado: sua variação é direta ao
nível de atividade, porém não proporcional. Exemplo: custo de supervisão, para
cada 10 pacientes internados, necessita-se de mais cinco auxiliares de
enfermagem e para cada 5 novos auxiliares, necessita-se de uma nova enfermeira
supervisora para equipe.
§
Custo misto composto: este custo possuem parte fixa e parte variável. Uma
varia diretamente proporcional à quantidade produzida e a outra mantém-se
constante e qualquer nível de atividade. Exemplo: a parcela de energia elétrica
utilizada na iluminação e nos equipamentos do serviço do Laboratório de
Patologia Clínica.
Grupo 4: Quanto à incidência:
§
Diretos ao produto: são alocadas
diretamente ao produto. Exemplo: se tomarmos como referência a alta hospitalar,
são custos diretos os medicamentos, as próteses, os salários e os encargos
sociais do corpo clínico.
§
Indiretos ao produto: são os custos aplicados indiretamente ao produto.
Podem em alguns casos, até incidir diretamente, porém apresentam dificuldade
para controle individualizado, tendo-se que utilizar bases de rateio para sua
alocação ao produto.
Grupo 5:
Quanto ao momento do cálculo:
§
Custo históricos: são custos já realizados a valor original ou da
época em que foi formado. Seu cálculo serve para medir o desempenho
empresarial.
§
Custos futuros: são os custos calculados objetivando o planejamento
empresarial.
Grupo 6: Quanto a natureza do processo
§
Ordens específicas de
produção: baseia-se na agregação dos
custos específicos de cada produto fabricado ou serviço prestado.
§
Por série de produção: tipo de produção baseada na fabricação de vários
produtos ou na prestação simultânea de vários serviços.
3
– METODOLOGIA APLICADA À PESQUISA
Pelo caráter primaz da pesquisa – levantamento das
metodologias de custos utilizadas pelos Hospitais - é necessário que se
trabalhe com uma gama maior de técnicas de pesquisa científica, do que
geralmente se utilizam nas pesquisas acadêmicas.
O objetivo foi o de
buscar um levantamento de todas as informações necessárias para o
estabelecimento de conteúdo significativo, abrangentes e práticos que possam
ser utilizados por qualquer instituição hospitalar. Desta forma o método
científico adotado foi a da indução,
visto que partimos das observações e das práticas contábeis individuais de
quatro hospitais para estabelecer
verdades mais generalizadas.
Por se tratar de estabelecer o "como" e
"para que" da realidade dos custos nas instituições hospitalares, a
abordagem da metodologia foi direcionada para a pesquisa descritiva e
qualitativa.
Quanto as técnicas de pesquisas adotamos as seguintes:
a)
Entrevista
As entrevistas foram realizadas junto aos
contabilistas das instituições visitadas para levantamento e conhecimento das
chamadas operações típicas dos hospitais, incluindo neste item a verificação do
sistema de custo que utilizam.
Adotamos a técnica da entrevista não-estruturada, não
participante e individual do ponto de vista do entrevistado e em dupla do ponto
de vista do entrevistador.
b)
Análise Documental
Esta técnica foi utilizada na observação da aplicação
direta dos planos de contas dos hospitais, na verficação dos livros de
escrituração contábil e na análise das demonstrações financeiras.
A confidencialidade das informações quantitativas
destas instituições foram mantidas, uma vez que não há interesse quanto aos
valores apresentados, mas quanto ao modus
operandi do sistema contábil das instituições pesquisadas.
c)
Técnica do Incidente
Crítico
Um
método de extrair informações que poderiam não ser expressas prontamente foi
proposto por Flanagan, apud Smith (1999). Ele chamou-a de técnica do incidente
crítico e a definiu como: "um conjunto de procedimentos para colher
observações diretas do comportamento humano de forma a facilitar sua utilidade
potencial na solução de problemas práticos e no desenvolvimento de princípios
psicológicos amplos".
Por
"incidente" Flanagan quis dizer qualquer atividade humana observável
que é suficientemente completa em si mesma para permitir que sejam feitas
inferências ou predições a respeito da pessoa que desempenha o ato.
Para
ser "crítico", o incidente precisa ocorrer numa situação na qual a
finalidade ou intenção do ato parece bastante clara para o observador e quando
suas conseqüências são suficientemente definidas para deixar poucas dúvidas
sobre o seu efeito.
Foi
utilizada esta técnica para conhecer como os contadores hospitalares determinam os rateios de custos dos
hospitais, as melhores épocas de contabilização de receitas e despesas e como
ele trata o sistema de informações contábeis
do hospital.
4
– ANTECEDENTES INSTITUCIONALIZADOS DE CUSTOS UTILIZADOS PELOS HOSPITAIS
Embora as tentativas de generalizar a criação de Sistema de Apuração de Custos Hospitalar - SACH em saúde sejam recentes, mesmo na experiência dos países centrais, o Brasil é um dos países mais atrasados nesse campo. Tal atraso deve-se basicamente ao descaso do governo quanto a questões relacionadas à eficiência dos sistemas de saúde, bem como ao monitoramento das necessidades de financiamento e da qualidade dos serviço.
Dificilmente conseguiríamos rastrear os antecendentes da estruturação das primeiras tentativas de se estabelecer um sistema de apuração de custo hospitalar, principalmente levando-se em consideração a atuação da saúde, no Brasil, nas áreas pública e privada.
Partimos para exemplificação de três experiências cujos levantamentos se tornaram mais significativos e explicitados para este trabalho, que são os casos das tentativas de implantação de custo em hospitais da rede universitária, pelo Conselho Interministerial de Preços – CIP e a utilização do manual de Custos Hospitalares pela rede do antigo INAMPS, que foram relatadas nos trabalhos pioneiros de Ralph C. J. Von Gersdorff e publicados na Revista Brasileira de Contabilidade nos anos de 1979, 1980 e 1983.
Segundo Gersdorff (1979) as primeiras tentativas de
implantar um sistema de apuração de custos, em toda a rede de Hospitais
Universitários do então Ministério da Educação e Cultura, se reportam ao ano de
1982. Naquele momento o Ministério da Educação e Cultura já possuía 33 unidades
hospitalares vinculadas as Instituições Federais de Ensino, sendo vinte e
quatro hospitais gerais, quatro maternidade e cinco institutos especializados,
totalizando 7.886 leitos naquela época. Estes hospitais estavam instituídos sob
diferentes regimes jurídicos, sendo vinte e sete autarquias, cinco fundações e
uma empresa pública. Naquele ambiente de crescente dificuldades que vinham
enfrentando as unidades hospitalares, a Secretaria de Educação Superior- SESU
tomou a iniciativa de implantar um sistema de apuração de custos.
Em 1984
através da Portaria MEC/SESU n.º 32, 24/07/84 publicada no diário oficial da
união em 26/07/84, foi criada a Comissão de Coordenação do Sistema de Apuração
de Custos, com a função de implantar o Sistema de Apuração de Custos nos
Hospitais Universitários das IFES. Este sistema tinha como objetivo servir de
instrumento na tomada de decisão por parte dos gestores hospitalares, bem como,
possibilitaria um maior intercâmbio entre as unidades para alocação e captação
de recursos financeiros.
O sistema de apuração de custo, inicialmente foi
concebido por técnicos dos hospitais de Clínicas de Porto Alegre e da
Universidade Federal de Goiás, sendo implantada em três etapas: apuração dos
custos diretos, apuração do custeio
pleno e apuração do custeio pleno por
planilha eletrônica.
Desta
experiência inicialmente observou-se uma grande heterogeneidade entre os
hospitais, onde haviam não só diferenças jurídicas e regionais, mas também
diferenças de porte, sofisticação dos serviço
oferecidos, inserção no sistema nacional de saúde e suas atuações na
comunidade. Também ficou claro naquele
momento, que alguns hospitais possuíam, mesmo que rudimentares, sistemas de
apuração de custos implantados, outros não possuíam qualquer tipo de
informação. Todavia nos que haviam sistemas implantados, era visível a
divergência de parâmetros utilizados, dificultando as comparações entre
unidades ou mesmo qualquer tipo de acompanhamento por parte do Ministério da
Educação e Cultura.
Após o primeiro ano de implantação, o sistema foi
avaliado por técnicos da SESU, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, da
Universidade Federal de Goiás, do Hospital Wálter Cantídeo da Universidade
Federal do Ceará e do Hospital Antônio Pedro da Universidade Federal
Fluminense. Nesta avaliação ficou evidenciada a necessidade de uma maior
participação dos técnico de custos das instituições, a fim de analisarem as
distorções e definirem um sistema que se adequasse a todas as estruturas
existentes.
Com esse intuito foram realizados encontros em Porto
Alegre, Fortaleza, Brasília e Rio de Janeiro, sendo eleito em cada um deles um
representante que participaria do encontro final em Brasília. Esta estratégia
mostrou-se extremamente eficaz. Pois permitiu um intenso debate sobre o
assunto, ficando então definido um novo plano de centro de custo e um programa
de trabalho conjunto que contemplou as seguintes ações: cursos e
treinamentos, educação continuada,
consultorias e articulação entre instituições.
A comissão acima citada era formada por dois
representantes da Coordenadoria de Programação e Articulação da SESU, e três
representantes dos Hospitais Universitários sob presidência do Subsecretário de
Desenvolvimento das Instituições de Ensino Superior. Em novembro 1986 foi
promovido o primeiro curso de análise de custo, na cidade de Natal, com intuito
de implementar uma metodologia única para interpretação dos dados obtidos pelo
sistema. Entretanto isto não foi possível devido ao desnivelamento em que se
encontravam os diversos estágios de implantação nos Hospitais Universitários. Uma
nova tentativa foi realizada em 1987 desta vez na cidade de Campo Grande mais
uma vez sem sucesso.
Após 1987 a SESU parou de incentivar a implantação do
sistema a nível hospitalar. Isto devia-se a questões estratégicas e políticas
no âmbito do MEC, passando a incentivar a implantação de um sistema de apuração
de custos para as Universidades como um todo. Desde então os hospitais tem sido
os verdadeiros gerentes de seus sistemas não havendo mais nenhum tipo de
coordenação central ou cobrança de resultados das apurações.
No Brasil, outras duas experiências dicotômicas foram
a do Conselho Interministerial de Preços – CIP no período de 1971 a 1974 e a do Ministério da Previdência e
Assistência Social - MPAS a partir de 1971 até a presente data.
O CIP já tinha conseguido em 1973 e 1974 que suas
‘planilhas’ (4 grandes formulários de custos) voltassem mais ou menos bem,
preenchidos, pelo menos, pelos hospitais grandes, bem organizados em termos de
contabilidade de custos. Mas os pequenos acabaram por dar números sem
fidedignidade, simplesmente copiados, com os mesmos números de outros
hospitais. Foi tomada uma amostra de planilhas referentes ao ano 1973
apresentadas ao CIP, com preços atualizados para março de 1975, só a respeito
de hospitais gerais, de psiquiatria e tisiologia, mostrando custos médios
ponderados, brutos e corrigidos e por
tipo de custos. Os resultados da
síntese das planilhas não foram satisfatórios e apresentaram grandes
divergências, o que levou o CIP a abandonar a experiência em 1975.
Por sua vez, o Instituto Nacional de Assistência
Médica da Previdência Social - INAMPS
que em 1973 possuía 20 hospitais
próprios obrigava-os a usar o ‘Manual de Custos Hospitalares - Hospitais
Próprios’ e o ‘Plano de Contas Único’
da União que deveria ser adotado também pelos governos estaduais, incluindo
suas unidades hospitalares. A primeira edição deste manual é de 1973, a segunda
de 1977. Um manual quase idêntico foi elaborado para os hospitais privados,
acompanhado por um ‘Plano de Contas –
Padrão’, como sugestão, com o objetivo de compatibilizar a contabilidade geral
ou financeira com a contabilidade de custos.
Como mais da metade dos hospitais particulares
brasileiros não têm nem um arquivo médico, a contabilidade é feita por
contabilista contratado ou escritório de contabilidade contratada com o
objetivo de poder fazer a declaração do imposto de renda da pessoa jurídica, de
cobrar contas do INAMPS, pagar o Imposto sobre Serviços – ISSQN.
Portanto, os custos (chamados ‘despesas’ em geral) são
apurados com a finalidade de poder fazer o Demonstrativo de Resultado do
Exercício após o cálculo da renda bruta da qual os impostos, custos e despesas
são deduzidos. O Balanço Patrimonial é
feito porque a Receita Federal exige a declaração dos bens e das dívidas.
Também o pagamento dos impostos municipais (ISS e imposto predial) exige ter
uma contabilidade financeira comum. São poucos os hospitais que têm uma
contabilidade de custos e os que tem
não se distingue essencialmente daquela usada nos hospitais próprios do
INAMPS, isto é, trata-se de um custeio por absorção. Além de facilitar o
pagamento dos impostos e a cobrança das contas do INAMPS a contabilidade é
usada também para comparações do tipo: mês atual - mês anterior, para descobrir
variâncias significantes.
5
– METODOLOGIAS PARA O CUSTO HOSPITALAR
Não há duvidas que as metodologias mais utilizadas em
sistema de custos, por parte das empresas de uma maneira geral, são os custeio por absorção e o direto. A
diferença principal é que um distingue entre custo direto e indireto e o outro
entre custos variáveis ( custo direto) e os custos fixos ( custo indireto,
compostos de custo fixos e variáveis). Ambos apresentam vantagens e
desvantagens na sua utilização conforme demonstrado na figura 1, que foram explicitados
por Gersdorff (1979) há vinte e um anos e que permanecem válidos até a presente
data.
Figura 1 – Quadro Comparativo de Metodologias de
Rateio de Custos
|
Método |
Vantagens |
Desvantagens |
|
Custeio
por Absorção |
§
Todos os custos podem
ser tomados em conta e os custos unitários calculados, mostrando a estrutura
dos custos; §
O rateio pelos centros
de custo permite usar a ‘Gerência por Centros de Responsabilidade’ onde os
gerentes destes centros são responsáveis pelo comportamento dos custos nos
seus centros e pela contribuição dos seus centros ao lucro. |
§
Variações no volume de
produção não podem ser medidas na sua influência nos custos; §
Ênfase na distinção
entre custo de produção e outros custos, sem levar em conta a distinção entre
custos fixos e variáveis; §
Demora na absorção
unitária: só podem ser calculados no fim do período contábil; §
Os métodos de absorção
são arbitrários em muitos casos. Por exemplo, o custo unitário de 1Kg ou de 1
peça de roupa lavada: esta medição só seria possível se a roupa é realmente
pesada ou controlada, o que dificilmente acontece na prática. |
|
Custeio Direto |
§
A distinção entre
custos variáveis e fixos permite levar em conta variações no volume de
produção e de usar as técnicas do ponto de equilíbrio e orçamento flexível; §
O cálculo do lucro
líquido pode ser mais rápido §
Decisão rápida nos
casos seguintes: parar atividades que não dão lucro; fixar preços de venda
para encomendas especiais (volume maior com preço menor por unidade); modo
mais lucrativo no uso de recursos de produção escassos; fazer, comprar ou
alugar um produto. |
§
É difícil e arbitrária
a distinção entre custos variáveis e fixos e a divisão dos custos
semivariáveis ou semifixos entre seus componentes fixos e variáveis; §
A categoria
‘mão-de-obra Variável’ ficara cada vez mais fictícia à medida que a
mão-de-obra de qualquer tipo não pode ser despedida a curto prazo, sendo
protegida pela Legislação Trabalhista, por Contratos Coletivos com vigência
de pelo menos um ano,; §
À medida que a
produção fica cada vez mais intensiva em capital (automatização) a parte fixa
dos custos cresce. No entanto, o custeio direto e também o custeio por
absorção só tem sentido se a parte variável for maior ou significante em
relação à parte fixa (ou indireta) |
Existem outros sistema de custeio? Existem os sistemas de custo por redução escalar, por ordem de produção, por processo, padrão e o baseado em atividades, os quais veremos através de uma breve descrição.
Sistema de Custo por Redução Escalar
Este
método, também chamado de método das
seções homogêneas ou método RKW, é caracterizado pelo fato do volume de
atividades produtivas de cada centro de custo poder ser medido por uma unidade
que defina toda a produção que passa pelo centro de custo, por mais
diversificado que possa ser. A esta unidade, denominamos ‘Unidade de
Mensuração’, podendo ser também denominada,
‘Unidade de Mensuração Ponderada’, quando a diversificação não permitir
uma classificação homogênea, sendo necessário atribuir um fator de ponderação
para cada produto ou serviço hospitalar produzido.
Este método permite que cada centro de custo
transfira, por meio de rateio, seu custo total a todos os centros de custos que
tenham prestado serviços, que lhe sucedam no plano hierarquizado de centros de
custo ( o que chamamos de "efeito cascata"). Permite assim, a
transferência de custo também entre centros de custo do mesmo grupo.
Em contrapartida, exige um grande rigor na
hierarquização dos centros alocados em cada um dos grupos de forma que, no
processo de interação de troca de serviços, tenha prioridade, no rateio de seus
custos para demais, aqueles cujos serviços prestados tenha maior relevância
econômica do que os recebidos. Por esse método, os centros de custo que já
foram rateados, não receberão rateios dos demais centros, evitando-se assim, a
formação de resíduos de custo não apropriáveis aos produtos.
Sistema de Custo por Ordem de Produção
Este sistema, é característico de empresas que
produzem sob encomenda, sejam estas unitárias ou em lotes. Podemos citar como
exemplo as empresas de construção civil, tipografias, setor mobiliário,
estaleiros e produtoras de filmes.
Os custos acumulados de matérias-primas, mão-de-obra e
custos indiretos de fabricação, são computados a partir da emissão de uma ordem
para produção de lotes de um bem ou serviço.
Os resultados (lucro ou prejuízo) são rapidamente
diagnosticados. Para isso, basta subtrair do preço de venda os custos
acumulados naquela ordem, não havendo necessidade de ser feita uma apuração
periódica dos resultados.
Os custos primários que incidem diretamente ao produto
poderão ser obtidos logo que a ordem esteja completamente concluída. Já os
custos indiretos, só poderão ser incorporados ao produto quando terminar o
período contábil.
Todo esse processo de determinação e apropriação que
caracteriza o sistema requer freqüentemente um grande números de pessoas
dedicadas a este fim, fazendo com que os fluxos de informações sejam inúmeros,
principalmente na determinação de custo da mão-de-obra, aumentando consideravelmente
o seu custo operacional.
Neste sistema o formulário de ordem de produção é o
centro nevrálgico, tendo como objetivo principal apresentar e registrar os
gastos com material direto, mão de obra direta e uma estimativa dos custos
indiretos relativos a unidade produzida. Devem estar no formulário de ordem de
produção:
§
Modelo e características
do produto a ser fabricado;
§
Data de emissão e
término esperado, bem como estimativa dos custos indiretos de fabricação;
§
Locais distintos para
registrar material direto e mão de obra direta;
§
Resumo dos custos
Sistema de Custo por Processo
O sistema de custeio por processo, adapta-se a empresa
que possuam um sistema de produção contínua, com processos consecutivos para
produção de produtos padronizados. Pode-se citar como exemplos, as empresas do
ramo de eletrodomésticos, produtos químicos, hospitais, etc.
Este processo difere muito do anterior no que tange a
acumulação de custos. No primeiro sistema, os custos são acumulados previamente
em ordens de produção, para posteriormente serem aglutinados em seus
departamentos produtivos. No sistema de custeio por processo, a metodologia é
inversa, pois primeiramente chega-se aos custos por processo ou departamento,
para posteriormente distribuí-los aos produtos que passam por estes processos.
Com isto, o cerne deste sistema passa a ser os centros de custos e não mais o
produto elaborado através de uma ordem de produção.
A seguir, apresenta-se as características mais
relevantes deste sistema de custeio.
§
Aplicação: são aplicados
em empresas que possuem produção continua e seriada, com lote de produtos
padronizados.
§
Acumulação: os custos
com material de consumo, mão de obra direta e custos indiretos de fabricação
são acumulados durante o processo produtivo nos departamentos ou centros de
custo.
§
Custo de produção:
originam-se na acumulação dos custos dos diversos processos produtivos, através
de cinco etapas seqüenciais: fluxo físico (produtivo), unidade equivalente,
fluxo monetário, custo total dos procedimentos e custo médio unitário. O custo
total de cada centro de custo ou departamento, divido pela sua respectiva
produção, dará o custo médio unitário.
§
Transferência das
apurações: esta podem ser mensais, bimestrais ou trimestrais, porém
recomenda-se serem o mais freqüente possível, pois proporcionam um perfil
atualizado da estrutura de custo, e permite uma tomada de decisão a nível
gerencial mais rápida e segura.
§
Custo operacional do
sistema: é um sistema de custeio menos burocrático do o que apresentado
anteriormente, devido ao menor número de detalhamentos e registros. Com isto,
ganha-se em tempo e economia de custos.
Sistema de Custo Padrão
O termo padrão possui inúmeros significados e várias
implicações. Todos os custos padrões são oriundos de uma pré determinação,
porém nem todos os custos pré orçados podem ser classificados como tal. Os
custos padrões são estabelecidos segundo estudos de engenharia e são
cuidadosamente apurados, levando-se em conta o presente e o passado. Para
determinação dos custos padrões, há necessidade de seguir alguns critérios:
§
Seleção minuciosa do
material utilizado na produção;
§
Estudos de tempo e
desempenho das operações produtivas;
§
Estudos de engenharia
sobre equipamentos e operações fabris.
Custos históricos através de gastos médios ou que
levem em conta uma base científica do método de produção, não podem ser
classificados como custos estimados. O custo padrão sintetiza em seu valor o
custo para se produzir um bem ou serviço. A seguir são colocadas algumas
definições que servirão para um melhor entendimento do assunto.
§
Padrão: medida de
quantidade, peso, valor e qualidade,
estabelecida por uma autoridade.
§
Custo padrão: valor
material, mão de obra ou gastos gerais de fabricação cuidadosamente apurados,
necessários a elaboração de um produto ou serviço.
§
Método de custo padrão:
no ramo contábil, compara os custos atuais com os custo padrão, testando as
justificativas possíveis para as variações ocorridas.
Dentre as vantagens deste sistema, considerou-se
apenas as mais importantes:
§
Controle e redução de
custos;
§
Promover e medir a
eficiência dos sistema produtivo;
§
Simplificação dos
inventários.
Esta área científica é muito polêmica, por não se
tratar, em geral de discussões e controvérsias sobre critérios empíricos e não
científicos, tendo assim uma elevada margem de contestação. Os problemas
econômicos se assemelham mais a medicina, onde paralelamente ao empirismo
consciente e experiente, são utilizadas técnicas científicas.
Sistema de Custo Baseado em Atividades
O Custeio Baseando em Atividades ( Activy based
costing – ABC) é um sistema de custo
que visa quantificar as atividade realizadas por uma empresa, utilizando
vetores (direcionandores), para alocar as despesas de uma forma mais realista
aos produtos e serviços. O princípio básico do ABC é que as atividades são as
causas dos custos, e os produtos incorrem neste mesmo custos através das
atividades que eles exigem.
O ABC, na prática, leva a um rastreamento de dados que
habitualmente não são considerados nos sistemas de custeio tradicionais, por
extensão, ele ajuda a redimensionar a mentalidade gerencial das empresas onde é
aplicado. Este método de custeio visa basicamente detectar os custos ‘ocultos’
existentes para produzir bens e serviços e auxilia no descobrimento de custos
reais dos produtos e processos, na análise mais precisa dos custos de
administração e na aferição de propostas mais competitivas em relação aos
correntes.
Os sistemas convencionais de gerenciamento de custeio
não permite análises mais consistentes quanto a problemas graves das empresas
como retrabalhos de produtos defeituosos ou gargalos de produção. Medir passo a
passo o processo produtivo permite a gerentes e supervisores a quantificação
econômica de atrasos e ineficiência do processo produtivo.
Na visão de Lima (1997) a
aplicação do ABC pode beneficiar
serviços de saúde de muitas maneiras. Além de fornecer informações de custos
realísticos, o ABC pode ser usado para estudar tendências e comparar custos por
diagnósticos, por atendimento médico, ou por pacientes de diferentes planos de
saúde. Para se beneficiar do ABC, os hospitais devem remodelar seus sistemas de
contabilidade de custos para fornecer informações de custos relevantes. As
pessoas envolvidas com o sistema de custos gerencial devem ser capazes de ir
além dos custos médios para estudar fatores básicos que afetam os custos
hospitalares e as forças que controlam esses fatores.
6
– VIABILIZANDO UM SISTEMA DE CUSTO HOSPITALAR
A estrutura da organização é fundamental para a construção de um sistema de custo que, por sua vez, com suas contas de operação, deve corresponder à divisão de responsabilidade. O Chefe do Serviço, ou Gerente Administrativo ou o Diretor Geral possui uma autoridade e, consequentemente, deverá ser responsável pelos seus atos. Sendo assim, deverá prestar conta de todas as suas decisões.
O responsável pelo custo deve associar o custo com as áreas definidas existentes na organização. Ele deve procurar estabelecer uma ligação dos custos de serviços, processos ou projetos com os responsáveis por seu cumprimento e execução. Considera-se indispensável a identificação de todos as centros de custos, quer sejam de atividades gerais, intermediárias ou final. Um outro elemento é a criação, classificação e identificação dos centros de custos. Um sistema de custos hospitalar, independente da metodologia adotada, deverá contemplar o fluxo apresentado na figura 2.
Figura 2 – Metodologia para o Custo Hospitalar

Para a elaboração do sistema de custos são necessários
alguns pré-requisitos: o primeiro é o levantamento minucioso de todas as
rotinas administrativas, insumos (externos e internos) utilizados e produtos
(intermediários ou de demanda final) produzidos pelos serviços de saúde, incluindo,
obviamente, os recursos humanos. A combinação dessas rotinas, insumos e
produtos permite construir funções de produção e serviços associadas a cada um
desse produtos ou serviços (finais ou intermediários).
O segundo passo seria, a partir do levantamento
exaustivo do item anterior, identificar e criar os centros de custo, entendidos
como aqueles que, num dado espaço físico, e utilizando equipes de pessoal com
tarefas complementares, produzem um ou mais produtos ou serviços, com
características similares ou afins quanto aos seus usos ou às rotinas
desenvolvidas, conhecimento técnico especializado necessário e insumos comuns.
Os centros de custos criados são classificados em
diretos, indiretos e de apoio. Essa classificação, embora envolva uma certa subjetividade,
deve obedecer a critérios ou convenções adotadas pelos SACH em funcionamento
nos estabelecimentos de saúdes de cada país ou região.
Tal procedimento facilita a padronização de sistema de
informação, adoção de critérios de remuneração e o estabelecimento de margens
de custeio para determinados serviços, possibilitando estudos e comparações.
O terceiro passo é manter um sistema de informação que
permita registrar a informação física e financeira associada aos insumos,
produtos e valores adicionando em cada etapa do fluxo de produção de serviços
de saúde.
Este sistema subsidiará o conhecimento dos custos de
cada bem ou serviços produzido. Os sistemas de informação devem possibilitar a
armazenagem dos dados e o cruzamento com informações associadas a cada paciente
e/ou cada patologia. A conta do hospital deverá ser nesse caso, a expressão do
acúmulo de custo de cada paciente, de acordo com a totalidade dos bens e
serviços que consumiu em cada centro de custo.
Uma vez estabelecidas estas rotinas, a informação
levada possibilitará ao hospital e ao paciente ter uma visão mais clara,
precisa e detalhada das atividades envolvidas no processo de internação médica
utilizado e seus respectivos custos.
Para que se obtenha uma apuração de custo mais precisa
faz-se necessário, além do já mencionado, o estabelecimento de um fluxo de
informações que abranja os dados financeiros, como as despesas com pessoal,
material de consumo, serviços de terceiros e outras despesas correntes. Por
exemplo, a farmácia e o almoxarifado encaminharão dados relativos à
distribuição de medicamentos e materiais de consumo; a seção de pessoal
informará sobre as despesas referentes a pagamentos de salários e encargos
sociais; o setor financeiro informará a despesa relacionada a serviços de
terceiros; o setor de transporte informará a despesa relacionada com os
veículos e assim por diante, sempre identificando os centros de custo, de
origem e destino das ações.
7
– RESULTADOS DA PESQUISA
Os hospitais brasileiros passam por profunda crise de
identidade. A dicotomia entre melhoria do atendimento ao paciente e a
realização da modernidade administrativa da instituição tem sido a tônica das
discussões.
A pesquisa se propôs, em âmbito mais amplo, a contribuir para o esclarecimento das articulações
entre o Sistema de Informações Contábeis - SIC e a gestão administrativa das
instituições hospitalares e um dos principais aspectos a ser levantado foi a da
aplicabilidade da Contabilidade de Custos em instituições desta natureza.
Foram adotadas ampla gama de métodos de pesquisa,
consistindo em: entrevistas, análise documental, técnica do incidente crítico e
formulários de pesquisa. Esses métodos possibilitaram o levantamento das
operações típicas e sua contabilização, verificação do plano de contas e de
demonstrações contábeis, identificação do perfil jurídico e fiscal, bem como,
quais mecanismos são ou não utilizados pelos administradores hospitalares para
tomada de decisões e como o sistema contábil tem ou não contribuído para isso.
A pesquisa no campo na administração e na
contabilidade Hospitalar, tanto na área pública, quanto na privada, apresenta
complexidade por inúmeros fatores, entre os quais selecionamos:
§
Falta de confiabilidade
nos dados estatísticos
§
Excessiva burocracia da
administração e contabilidade hospitalar
§
Dificuldade de entender
a terminologia da área médica
§
Complexidade operacional
de serviços
§
Despreparo técnico dos
gestores e contabilistas
§
Falta de espírito de
pesquisa dos profissionais hospitalares
Para realização da pesquisa foram consultadas quatro
instituições hospitalares da região do Vale do Aço, no Estado de Minas Gerais,
compreendidas pelas cidades de Coronel Fabriciano, Ipatinga e Timóteo. O Vale
do Aço se caracteriza como pólo industrial do leste de Minas Gerais, tendo como
empresas principais a USIMINAS, ACESITA, CENIBRA, CIMENTO CAUÊ e USIMINAS
MECÂNICA
Os
dados levantados permitiram, de acordo com a figura 3, traçar o seguinte perfil institucional dos
hospitais pesquisados:
Figura 3– Perfil das Instituições Hospitalares
Pesquisadas
|
Entidade |
Ano de Fundação |
Leitos |
Regime Jurídico |
Sócios |
Regime Econômico |
Hospital
Vital Brasil |
1992 |
85 |
Sociedade Beneficente |
- |
Sem fins Lucrativo |
Hospital
São Lucas
|
1993 |
11 |
Sociedade Limitada |
02 |
Com fins Lucrativo |
Protoclínica
Unimed
|
1996 |
22 |
Cooperativa Trabalho |
208 |
Com fins Lucrativo |
Hospital
|
1962 |
159 |
Sociedade Limitada |
3 |
Com fins Lucrativo |
Nenhum dos hospitais pesquisados possui uma
contabilidade de custos ou até mesmo um sistema de apuração de custos. Dois
deles segregam, na Demonstração de Resultado do Exercício, custos de despesas,
os outros dois, lançam todos os gatos como despesa do exercício, conforme é
demonstrado na figura 4 que segue.
Ao levantarmos e trabalharmos
com a DRE por percentuais, constatamos com certa inquietação a baixíssima
margem de lucro líquido de 4% (quatro por cento).
Dessa forma, a operacionalidade com margens baixas e
sem o auxílio de um sistema de custos para nortear decisões gerenciais, estas
instituições correm um risco grande de se tornarem deficitárias por qualquer
problema estrutural, descontrole ou por políticas macroeconômicas.
Por outro lado, sabemos que a realidade encontrada nas
instituições pesquisadas não difere muito da realidade nacional, a quase
totalidade de hospitais brasileiros não possui sistema de apuração de custo.
Esteves (1992) em pesquisa
realizada em instituições hospitalares de São Paulo que empregam uma
contabilidade de custos chegou a conclusão que os sistemas de contabilidade
administrativa e contabilidade de custos não parecem estar interligados,
caminham paralelo, trazendo como conseqüência demora na coleta de dados e,
portanto, a impossibilidade de que as informações de custos resultantes sejam
realmente um reflexo do que está acontecendo na instituição.
Figura 4 – Formatação da Demonstração do Resultado do
Exercício
|
HOSPITAL |
FORMATAÇÃO |
|||||
|
São
Lucas |
|
|
|
|
||
|
|
|
RECEITA – 100 % |
|
|
||
|
|
|
DESPESA – 96 % |
|
|
|
|
|
|
|
|
LUCRO – 4% |
|
|
|
|
Vital
Brasil |
|
|
|
|
||
|
|
|
RECEITA – 100 % |
|
|
||
|
|
|
DESPESAS – 154 % |
|
|||
|
|
|
|
|
PREJUÍZO – 54 % |
|
|
|
Protoclinica |
|
|
|
|
||
|
|
|
RECEITA – 100% |
|
|
||
|
|
|
CUSTO - 70 % |
DESPESA – 26% |
|
|
|
|
|
|
|
LUCRO – 4% |
|
|
|
|
Siderrúrgico |
|
|
|
|
||
|
|
|
RECEITA – 100 % |
|
|
||
|
|
|
CUSTO – 87 % |
DESPESA – 8 % |
|
|
|
|
|
|
|
LUCRO – 4% |
|
|
|
8
– CONCLUSÕES
O Sistema de Apuração de Custos Hospitalares - SACH
possibilita determinar custos dos serviços oferecidos pelos hospitais e
acompanhá-los com valores pagos pelo INAMPS e seguros privados. Fornece a base
para o planejamento de gastos operacionais. Oferece a base para comparar o
custo de um hospital com os demais. Permite conhecer a eficácia em termos de
custo das intervenções nas diversas áreas do hospital.
É o SACH que responde ou alerta a alta administração
quanto ao fato da unidade estar ou não operando eficientemente, qual o custo
mais elevado ou se os preços de vendas são realistas em relação ao custo.
Fornece as informações necessárias para o planejamento futuro, indicando o
comportamento do custo histórico sempre que possível, separando o custo fixo do
variável. Identifica as atividades que não adicionam valor, mas que consomem
recursos sem adicionar valor de serviços prestados aos pacientes. É através das
informações fornecidas pelo SACH que a
alta administração terá a certeza de que está investindo corretamente os
recursos para atender as contínuas necessidades de modernização das instalações
e equipamentos de sua unidade. Padroniza as informações utilizadas como
critério de pagamento de serviço de saúde. É responsável pela tradução dos
serviços produzidos no Sistemas através de valores monetários.
Sabemos que muitas são as dificuldades de implantar um
sistema de custos gerenciais ou uma contabilidade de custos. As principais
dificuldades encontradas na implantação e manutenção de um sistema de custos
hospitalares são evidenciados por Fernandes (1993) da seguinte maneira:
§
Falta de literatura
especializada. A maior farte da literatura existente sobre custos diz respeito
aà empresas manufatureiras, que tem sido o foco principal de interesse de
acadêmicos e profissionais por vários anos.
§
Falta de pessoal técnico
e/ou especializado que conheça a dinâmica e, consequentemente, a implantação e
manutenção do sistema.
§
Desinteresse por parte
dos responsáveis (médicos) pelos hospitais, propiciado talvez, por desconhecimento do assunto e pela falta
de condições de aproveitarem as informações na gestão administrativa.
§
Dificuldade na obtenção
das informações contábeis e estatísticas para implantação de sistemas de
custos, devido ao custo e ao tempo despendidos.
§
Falta de supervisão,
treinamento e conscientização do pessoal ligado ao sistema de custos. É
possível notar que em grande parte das instituições de saúde a preocupação está
apenas com corpo clínico e de
enfermagem, e esquece-se um pouco da qualificação e treinamento de pessoal
administrativo.
A contabilidade de custos constitui-se em ferramenta
básica para o conhecimento, acompanhamento e avaliação sistemática da despesa e
custo das diversas atividades desenvolvidas pelas unidades de saúde. Integra e
complementa o subsistema de Informação Gerencial. Constitui-se numa ferramenta
extremamente potente para ação gerencial; não só para monitorar o custeio
intraestabelecimento, como também para definir linhas de ação gerencial mais
amplas, na medida em que possibilita identificar caminhos estratégicos mais
custo-efetivos para as organizações. Oferece aos administradores a oportunidade
de identificar os procedimentos ou atividades mais rentáveis àquelas cujo custo
precisa ser analisado e controlado com mais cuidado, ou que não são viáveis
economicamente.
Por fim, entendemos que a contabilidade hospitalar
ainda se apresenta como um vasto campo para a pesquisa e aplicações práticas da
contabilidade, praticamente ainda inexplorado e altamente promissor.
ATKINSON,
Anthony A. et alii. Contabilidade
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__________________
* Professor e Coordenador do Curso de Ciências Contábeis do UnilesteMG
Membro da Academia Mineira de Ciências
Contábeis
**
Bacharel em Ciências Contábeis pelo UnilesteMG
Pós-Graduação em Perícia Contábil pelo
UnilesteMG
Pesquisadora do Núcleo de Assessoramento
a Pesquisa de Contabilidade do UnilesteMG
ARTIGO PUBLICADO – REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SERRA NEGRA, Carlos Albert; SERRA NEGRA, Elizabete Marinho. Custo Hospitalar:
Uma Reflexão sobre Implantação e Necessidades. Contabilidade Vista &
Revista. Belo Horizonte: UFMG, v. 12, n.1, abril de 2001.