09/03/10 - Certificado digital gira R$ 3 bi e gera queixas
RG virtual passa a ser obrigatório para as empresas prestarem contas; estão livres as que pagam imposto pelo Simples
Certisign e Serasa
Experian dominam esse negócio no setor privado; usuários já reclamam do alto preço cobrado pelo novo serviço
O uso cada vez maior da internet
como meio para as empresas transmitirem informações contábeis e fiscais e prestarem contas ao fisco impulsionou o mercado de certificação digital,
estimado em cerca de R$ 3 bilhões neste ano.
O certificado digital é um documento eletrônico, com validade jurídica, que funciona como uma
carteira de identidade virtual das empresas.
Permite realizar operações eletrônicas com mais segurança porque utiliza procedimentos lógicos e
matemáticos complexos que asseguram a confiabilidade das informações.
Nove empresas -sete do setor público e duas do privado- estão autorizadas
pelo ITI (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação), autarquia criada em 2001 e ligada à Casa Civil da Presidência da República, a conceder o
certificado digital.
Na prática, porém, Certisign e Serasa Experian dominam esse negócio no setor privado. Cada uma delas credenciou outras
empresas e entidades, como sindicatos e federações, e montou uma rede para fornecer a certificação digital pelo país.
Esse novo mercado é
semelhante ao do cartão de crédito. As bandeiras dos cartões, como Visa e MasterCard, corresponderiam às nove empresas certificadoras, credenciadas
pelo governo federal para conceder a certificação digital. E os bancos que oferecem os cartões aos clientes corresponderiam às entidades que firmam
parcerias com as certificadoras.
O que fará o mercado crescer 50% neste ano em relação ao ano passado, segundo estimativa do ITI, da Certisign
e da Serasa Experian, é o fato de a Receita Federal ter obrigado mais empresas, a partir deste ano, a ter certificação digital para prestar contas ao
fisco. Hoje, só estão livres dessa obrigação as empresas que pagam impostos pelo Simples Nacional.
"A tendência é que cada vez mais pessoas
físicas e jurídicas tenham CPF e CNPJ virtuais", afirma Márcio Nunes, diretor de desenvolvimento e produto da Certisign, que estima deter 60% do
mercado.
"O Brasil passa por uma revolução virtual, está transformando todo o seu sistema contábil e fiscal em digital. E a ferramenta para
isso é a certificação digital", afirma Helder Moreira, da Serasa Experian.
O certificado digital ainda é algo novo -e desconhecido- para
muitas empresas. Escritórios de contabilidade informam que clientes estão enfrentando dificuldades para obter a carteira de identidade virtual.
Reclamam que o agendamento por meio da internet é demorado, que os preços são elevados e que o serviço deveria ser subsidiado pelo governo.
O
e-CPF (versão eletrônica do CPF de pessoas físicas) custa a partir de R$ 110. O e-CNPJ (para empresas), R$ 165. A renovação do certificado digital,
que pode ter validade de um e de três anos, também é pago.
Esses preços são das versões mais simples e não incluem cartões com chip, leitoras
ópticas e uma espécie de pendrive que permitem ao usuário portar o certificado digital e acessar informações e documentos de qualquer
computador.
Para atender o empresário em seu local de trabalho, as empresas cobram ainda taxas de cerca de R$ 300. Pacotes que incluem outros
serviços -como implementação da nota fiscal eletrônica- chegam a custar até R$ 2.000.
"Defendemos que a certificação digital deva ser
subsidiada pelo governo. Quando o projeto nasceu, o certificado digital era para ser gratuito", diz José Maria Chapina Alcazar, presidente do
Sescon-SP, sindicato que reúne empresas de contabilidade e de assessoria empresarial.
Renato Martini, diretor-presidente do ITI, diz que os
preços do certificado digital são "baixos" considerando as vantagens com a troca do papel pelo documento eletrônico.
Fátima Fernandes e
Claudia Rolli
Burocracia permanece, diz empresário
As empresas que estão retirando o certificado digital reclamam da falta de informação
sobre fornecedores dos serviços e dos preços cobrados. Informam também que a certificação ainda não conseguiu eliminar a burocracia que envolve a
prestação de contas ao fisco.
"O governo obrigou todas as empresas que pagam impostos pelo lucro presumido, como no nosso caso, a ter o
certificado digital a partir deste ano, com o argumento de que iria desburocratizar serviços e melhorar o atendimento. Gastamos R$ 295 com a
certificação e não consigo obter certidões da Receita Federal, por exemplo, pelo meio virtual. Para que serve a certificação?", questiona Jailson
Bezerra da Silva, proprietário da Divisão, empresa de terceirização de mão de obra do Tatuapé.
Clodocir Derigi, sócio da Perfiltec
Ferramentaria, reclama do custo do serviço. "Faturo R$ 100 mil por mês e consigo pagar R$ 445 pelo serviço. E no caso de empresas pequenas que não
têm condição de pagar esse valor?" Ele diz ainda que não recebeu orientação de que havia duas empresas que prestam o serviço.
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